Análise: Tudo Pode Dar Certo
Você tem uma primeira cena preferida? Sim, você não leu errado não: primeira cena. Pode ser o prólogo ou mesmo a primeira imagem de um filme que tenha te impactado tanto que você nunca mais se esqueceu. Fazendo uma rápida pesquisa aqui, descobri que a maioria dos meus amigos atualmente prefere a (ótima) cena do assalto ao banco de “O Cavaleiro das Trevas”. Para mim, me veio à cabeça toda a sequência pré-créditos de “O Que Terá Acontecido a Baby Jane?”, que me deixou estatelado quando assisti pela primeira vez, lá no começo da minha adolescência. Mas tem outras, é claro. Quem souber de mais alguma, pode sugerir, é bom relembrar e isso dá assunto pra conversa durante uma semana inteira, se deixar, e me lembro até de uma crônica do Verissimo com o mesmo tema. Em geral, a abertura é pensada para prender a atenção do espectador, fazê-lo se interessar pelo resto da história, evitando assim que ele babe na roupa nova durante as próximas duas horas. Uma grande parte consegue fazer com que o filme tenha o mesmo ritmo dos seus primeiros minutos; outros começam promissores e perdem o fôlego; e em alguns casos, começam bem mas emporcalham no final. Mas pessoalmente falando, acho que é preciso talento para criar uma primeira cena. Como roteirista frustrado que sou, sei bem disso: coloco toda a minha atenção no começo e quando finalmente consigo passar por ele, descubro que não sei mais como melhorar. É chato. Bom para os talentosos, obviamente.
Disse tudo isso porque me lembrei de quando vi “Tudo Pode Dar Certo”, o novo projeto de outono de Woody Allen. Se não me engano ainda não entrou em circuito no Brasil – que tradicionalmente atrasa a exibição dos filmes de Allen mesmo – mas tive sorte: peguei numa sessão especial em um especial em homenagem a carreira do diretor em São Paulo, no começo do ano. E como espero sempre o melhor dele, lá fui. E wow, lá estava a primeira cena, perfeita, irretocável, quando Larry David se levanta e diz seu monólogo para o público que o assiste no cinema, ou seja, nós. Dirige-se diretamente à câmera, nos encarando e jogando todas aquelas tiradas inteligentes que só Woody Allen sabe escrever atualmente (se bem que o roteiro tem mais de trinta anos, e ele só desengavetou agora, e fazendo as contas, foi escrito em sua época mais criativa, de humor mais afiado; hoje em dia ele se preocupa demais com os dramas, e não estou dizendo que isso seja de todo ruim). E só mesmo ele para conceber um sujeito arrogante, prepotente, cheio de si apesar de inseguro em relação a morte, a Deus e ao Universo, o que rende cenas engraçadissimas. Personagem que cairia como uma luva para ele mesmo interpretar, sem dúvida, mas já não dá pra pensar outra pessoa no lugar de Larry David. E quando ele encontra Evan Rachel Wood, que faz a garota lerdinha que ele encontra perdida em Nova York, a gente pensa que o filme descambará para uma comédia romântica besta, dessas que sai em escala industrial todo ano. Mas não. Ao fugir do café-com-leite do gênero, Allen fez seu melhor filme na década.
Tecnicamente impecável e com uma trilha sonora sensacional (que tem até “Desafinado”, da dupla Tom Jobim/Newton Mendonça, vejam só!), “Tudo Pode Dar Certo” é bem dirigido, bem escrito e muito bem interpretado. São poucos os personagens, mas todos impagáveis, em especial a caipirona mãe e o “suspeito” pai de Melodie, feitos por Patricia Clarkson e Ed Bagley, Jr. É o tipo de filme que merece (ou merecia, não sei se já passou a época de concorrer) indicações aos prêmios de temporada. Há tempos uma comédia woddyalleniana não era tão divertida. Praticamente todos os diálogos saídos de Boris precisam estar em uma daquelas coletâneas de frases mal-humoradas, e Melodie é tão encantadora em sua ingenuidade que dá vontade de pegá-la pela mão e levar para casa. São 96 minutos bem gastos, com o melhor que a cabeça de um certo judeu novaiorquino pode oferecer: graça inteligente, que não nos julga idiotas a ponto de provocar riso frouxo. Não é de gargalhadas, mas de risos gostosos e satisfeitos. E mesmo que pareça um pouco surreal demais, o final traz uma mensagem excelente, marcante. Tá aí: já que comecei esse texto falando sobre as melhores primeiras cenas, preciso pensar em um novo texto, sobre os melhores finais. Se sair, com certeza este filme figurará entre eles.

Disse tudo isso porque me lembrei de quando vi “Tudo Pode Dar Certo”, o novo projeto de outono de Woody Allen. Se não me engano ainda não entrou em circuito no Brasil – que tradicionalmente atrasa a exibição dos filmes de Allen mesmo – mas tive sorte: peguei numa sessão especial em um especial em homenagem a carreira do diretor em São Paulo, no começo do ano. E como espero sempre o melhor dele, lá fui. E wow, lá estava a primeira cena, perfeita, irretocável, quando Larry David se levanta e diz seu monólogo para o público que o assiste no cinema, ou seja, nós. Dirige-se diretamente à câmera, nos encarando e jogando todas aquelas tiradas inteligentes que só Woody Allen sabe escrever atualmente (se bem que o roteiro tem mais de trinta anos, e ele só desengavetou agora, e fazendo as contas, foi escrito em sua época mais criativa, de humor mais afiado; hoje em dia ele se preocupa demais com os dramas, e não estou dizendo que isso seja de todo ruim). E só mesmo ele para conceber um sujeito arrogante, prepotente, cheio de si apesar de inseguro em relação a morte, a Deus e ao Universo, o que rende cenas engraçadissimas. Personagem que cairia como uma luva para ele mesmo interpretar, sem dúvida, mas já não dá pra pensar outra pessoa no lugar de Larry David. E quando ele encontra Evan Rachel Wood, que faz a garota lerdinha que ele encontra perdida em Nova York, a gente pensa que o filme descambará para uma comédia romântica besta, dessas que sai em escala industrial todo ano. Mas não. Ao fugir do café-com-leite do gênero, Allen fez seu melhor filme na década.

Tecnicamente impecável e com uma trilha sonora sensacional (que tem até “Desafinado”, da dupla Tom Jobim/Newton Mendonça, vejam só!), “Tudo Pode Dar Certo” é bem dirigido, bem escrito e muito bem interpretado. São poucos os personagens, mas todos impagáveis, em especial a caipirona mãe e o “suspeito” pai de Melodie, feitos por Patricia Clarkson e Ed Bagley, Jr. É o tipo de filme que merece (ou merecia, não sei se já passou a época de concorrer) indicações aos prêmios de temporada. Há tempos uma comédia woddyalleniana não era tão divertida. Praticamente todos os diálogos saídos de Boris precisam estar em uma daquelas coletâneas de frases mal-humoradas, e Melodie é tão encantadora em sua ingenuidade que dá vontade de pegá-la pela mão e levar para casa. São 96 minutos bem gastos, com o melhor que a cabeça de um certo judeu novaiorquino pode oferecer: graça inteligente, que não nos julga idiotas a ponto de provocar riso frouxo. Não é de gargalhadas, mas de risos gostosos e satisfeitos. E mesmo que pareça um pouco surreal demais, o final traz uma mensagem excelente, marcante. Tá aí: já que comecei esse texto falando sobre as melhores primeiras cenas, preciso pensar em um novo texto, sobre os melhores finais. Se sair, com certeza este filme figurará entre eles.
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