Cine Retrô: The Rocky Horror Picture Show

Certos eventos nos dão a oportunidade de ter experiências únicas. Não só pelo negócio em si, mas pelas circunstâncias. Vejam vocês por exemplo essa última Virada Cultural Paulista, que aconteceu no último fim de semana, dias 15 e 16 de maio. Eu mesmo não estava assim com grandes animações em sair de Itapetininga, pegar ônibus por duas horas e meia pra passar a madrugada vadiando pelas ruas de São Paulo. Estava na verdade levemente inclinado a deixar pro ano que vem – como fiz nos últimos dois anos, se não me engano. Mas de última hora resolvi ir, porque haviam comentado comigo sobre uma tal sessão interativa no SESC da Rua Augusta. Estava em casa, sem ter o que fazer, pensei: “por que não?”. E fui. Atrasado, mas fui. E foi chegar na capital para ser engolido por aquela sensação estranha e deliciosa de estar num lugar absolutamente diferente de tudo; São Paulo é um mar de contradições, pois apesar de ser quase totalmente uma selva de concreto armado, a gente se sente bem. Saltei na estação Consolação do metrô, e conforme subia a escada rolante que leva até a Rua Augusta, fui sentindo uma emoção estranha, e conforme a Avenida Paulista toda coberta por uma fina meblina foi preenchendo meu campo de visão, tive certeza: o lugar, à noite, é das coisas mais lindas que eu já tive a chance de conhecer. Me encontrei com Thiago Nadayoshi, o dono do Neptune Blues, e tocamos pro SESC. A sessão era à meia-noite, e era um clássico das sessões de meia-noite que iria ser exibido ali: “The Rocky Horror Picture Show”.


Estando lá, tive a honra de me encontrar com Alex Gonçalves – do cultuado e clássico Cine Resenhas – e com o Bruno de Souza, do não menos divertido Cine Caolho. Portanto, um encontro de cinéfilos para apreciar um filme clássico. E onde eu poderia querer coisa melhor? E digo a vocês aqui, que ainda tem paciência de ler o que eu escrevo e com toda a calma do mundo aguardam por um texto deste autor bissexto: foi a melhor sessão de cinema que eu já peguei na vida. Sem brincadeira. Não só por ser “The Rocky Horror...”, filme excelente de Jim Sharman que é cult desde 1975. Mas também por ser uma sessão interativa: recebemos kits com “objetos de cena” para interagir com as cenas que iam se sucedendo. Nunca em toda a minha vida vi algo tão divertido: pessoas dançando junto com as canções, rindo e cantando a todo instante e usando os óculos de neón, os colares iguais ao do Dr. Frank (interpretado com maestria por Tim Curry, um de seus melhores papéis até hoje, rivalizando com o Pennywise de “It – Uma Obra Prima do Medo”). E ver Susan Sarandon, em início de carreira, cantando, dançando e vestindo aquelas roupas masoquistas é algo incomparável, ainda mais em tela grande. E houve algo emblemático para mim, e não sei se meus companheiros de sessão concordam, mas eu que estava sentado nas últimas fileiras achei maravilhosa a chuva de pulseiras de neón, que todos começaram a jogar para o alto quando o filme acabou. É uma das coisas que jamais vou me esquecer.


A qualidade do filme, enquanto cinema, pode ser discutível. Segundo Thiago, “é um filme tão ruim que chega a ser bom”. Eu particularmente discordo, porque gosto dele desde que me entendo por gente, ou seja, desde que o vi pela primeira vez em alguma sessão perdida no Telecine. Foi paixão à primeira vista. As atuações caricatas, as músicas grudentas, a direção caótica... tudo combina com a histérica história do casal que se perde e acha um castelo no meio do nada onde habitam os alienígenas geniais vindos do planeta Transex. Não parece exagerado. Não parece forçado. Parece muito divertido, isso sim. E ver em tela grande me fez crer que o filme é sim uma obra-prima. Acompanhado de tão ilustres companhias, foi uma noite e tanto, que eu vou levar para o resto de minha vida. E o povo cantando “Rose Tint My Rose” também está gravado a ferro e fogo na minha cabeça. Enfim. Só gostaria de deixar registrado aqui que ainda me emociono quando me lembro do que passei, do que vi naquela madrugada. Espero um dia ter emoção comparável. Mas sei que nunca terei uma experiência igual, porque coisas assim só acontecem com a gente uma vez na vida.



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Análise: Tudo Pode Dar Certo

Você tem uma primeira cena preferida? Sim, você não leu errado não: primeira cena. Pode ser o prólogo ou mesmo a primeira imagem de um filme que tenha te impactado tanto que você nunca mais se esqueceu. Fazendo uma rápida pesquisa aqui, descobri que a maioria dos meus amigos atualmente prefere a (ótima) cena do assalto ao banco de “O Cavaleiro das Trevas”. Para mim, me veio à cabeça toda a sequência pré-créditos de “O Que Terá Acontecido a Baby Jane?”, que me deixou estatelado quando assisti pela primeira vez, lá no começo da minha adolescência. Mas tem outras, é claro. Quem souber de mais alguma, pode sugerir, é bom relembrar e isso dá assunto pra conversa durante uma semana inteira, se deixar, e me lembro até de uma crônica do Verissimo com o mesmo tema. Em geral, a abertura é pensada para prender a atenção do espectador, fazê-lo se interessar pelo resto da história, evitando assim que ele babe na roupa nova durante as próximas duas horas. Uma grande parte consegue fazer com que o filme tenha o mesmo ritmo dos seus primeiros minutos; outros começam promissores e perdem o fôlego; e em alguns casos, começam bem mas emporcalham no final. Mas pessoalmente falando, acho que é preciso talento para criar uma primeira cena. Como roteirista frustrado que sou, sei bem disso: coloco toda a minha atenção no começo e quando finalmente consigo passar por ele, descubro que não sei mais como melhorar. É chato. Bom para os talentosos, obviamente.


Disse tudo isso porque me lembrei de quando vi “Tudo Pode Dar Certo”, o novo projeto de outono de Woody Allen. Se não me engano ainda não entrou em circuito no Brasil – que tradicionalmente atrasa a exibição dos filmes de Allen mesmo – mas tive sorte: peguei numa sessão especial em um especial em homenagem a carreira do diretor em São Paulo, no começo do ano. E como espero sempre o melhor dele, lá fui. E wow, lá estava a primeira cena, perfeita, irretocável, quando Larry David se levanta e diz seu monólogo para o público que o assiste no cinema, ou seja, nós. Dirige-se diretamente à câmera, nos encarando e jogando todas aquelas tiradas inteligentes que só Woody Allen sabe escrever atualmente (se bem que o roteiro tem mais de trinta anos, e ele só desengavetou agora, e fazendo as contas, foi escrito em sua época mais criativa, de humor mais afiado; hoje em dia ele se preocupa demais com os dramas, e não estou dizendo que isso seja de todo ruim). E só mesmo ele para conceber um sujeito arrogante, prepotente, cheio de si apesar de inseguro em relação a morte, a Deus e ao Universo, o que rende cenas engraçadissimas. Personagem que cairia como uma luva para ele mesmo interpretar, sem dúvida, mas já não dá pra pensar outra pessoa no lugar de Larry David. E quando ele encontra Evan Rachel Wood, que faz a garota lerdinha que ele encontra perdida em Nova York, a gente pensa que o filme descambará para uma comédia romântica besta, dessas que sai em escala industrial todo ano. Mas não. Ao fugir do café-com-leite do gênero, Allen fez seu melhor filme na década.


Tecnicamente impecável e com uma trilha sonora sensacional (que tem até “Desafinado”, da dupla Tom Jobim/Newton Mendonça, vejam só!), “Tudo Pode Dar Certo” é bem dirigido, bem escrito e muito bem interpretado. São poucos os personagens, mas todos impagáveis, em especial a caipirona mãe e o “suspeito” pai de Melodie, feitos por Patricia Clarkson e Ed Bagley, Jr. É o tipo de filme que merece (ou merecia, não sei se já passou a época de concorrer) indicações aos prêmios de temporada. Há tempos uma comédia woddyalleniana não era tão divertida. Praticamente todos os diálogos saídos de Boris precisam estar em uma daquelas coletâneas de frases mal-humoradas, e Melodie é tão encantadora em sua ingenuidade que dá vontade de pegá-la pela mão e levar para casa. São 96 minutos bem gastos, com o melhor que a cabeça de um certo judeu novaiorquino pode oferecer: graça inteligente, que não nos julga idiotas a ponto de provocar riso frouxo. Não é de gargalhadas, mas de risos gostosos e satisfeitos. E mesmo que pareça um pouco surreal demais, o final traz uma mensagem excelente, marcante. Tá aí: já que comecei esse texto falando sobre as melhores primeiras cenas, preciso pensar em um novo texto, sobre os melhores finais. Se sair, com certeza este filme figurará entre eles.

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